O Parlamento Alemão, o Reichstag, registra uma existência de extrema turbulência marcada por tragédias e sucessivas reconstruções. Marco vivo da história suscita questões no universo da arquitetura, onde a premissa de preservar as lembranças e significados – muitas vezes não positivos – passa cumprir uma função de alerta para as futuras gerações.
Dono de uma história exuberante tem seu início com o Kaiser Guilherme I, em 1884, cuja conclusão da construção ocorreu apenas dez anos após, em 1894.
Guilherme II, sucessor de Guilherme I, detestou o resultado final do prédio, em especial sua cúpula que jugava ser de extremo mau gosto e chegou até mesmo a apelidar o edifício como “Casa de Macacos Imperial”. Seu desgosto com a obra foi tão grande que o prédio passou a ser usado como sede do Parlamento apenas em 1916.
Em 1933, o prédio foi acometido por um incêndio criminoso, praticamente colocando-o abaixo. Mais tarde, foi alvo frequente das duas Grandes Guerras, que o levaram praticamente à destruição.
Apesar de uma reconstrução parcial realizada entre 1961 e 1971 com projeto de Paul Baumgarten, o local pedia por uma nova reestruturação, principalmente após a queda do Muro de Berlim, ocasião em que o renomado arquiteto inglês Norman Foster foi convidado a realizar o projeto para a reabertura do Parlamento da Alemanha reunificada, numa proposta chamada de Retrofit.
Neste caso, mais que um símbolo para a cidade, o Parlamento Alemão – Reichstag, passaria a ser o símbolo de uma “nova” nação.
Após um período complicado de aprovação do projeto, levando Foster a quase abrir mão do trabalho, o arquiteto chegou a uma satisfatória e bela solução que manteria a cúpula, traço característico e simbólico da construção, além de colaborar com o conforto térmico e com grande aproveitamento da luz natural, valorizando ainda mais a majestosa estrutura.
Mas, o principal: um perfeito reforço à ideia de transparência no sentido mais amplo e metafórico da construção, valor associado diretamente ao Parlamento.
Hoje, a nova cúpula permite uma experiência única aos seus visitantes, já que, enquanto caminham pelas rampas em espiral existentes, podem acompanhar as atividades das sessões do parlamento, abaixo de seus pés.
Desta maneira, o arquiteto ressignificou a cúpula com maestria, afastando de vez o símbolo do Imperialismo e afirmando que desta vez é o povo que está no comando.
As obras foram finalizadas em 1999, quando o edifício do Reichstag passou a ser novamente a sede do parlamento alemão.